Jequié com o segundo São João mais caro da Bahia; gastança dos municípios entra na mira do MP após explosão de cachês

Enquanto prefeituras baianas disputam artistas a peso de ouro para o São João, o Ministério Público da Bahia (MP) decidiu acender o sinal de alerta sobre uma prática cada vez mais comum. No caso, a farra de cachês para artistas, cujos valores vêm crescendo ano após ano, muitas vezes em cidades que enfrentam dificuldades fiscais e cobranças frequentes por melhorias em serviços públicos.
A ofensiva do MP da Bahia ganhou força após contratos milionários começarem a chamar atenção pelo ritmo acelerado de crescimento. Em alguns casos, segundo o próprio MP, artistas passaram a cobrar o dobro ou até mais, de um ano para o outro, sem explicações claras para a disparada dos valores.
“Os artistas estavam majorando os valores, anualmente, de forma indiscriminada, sem nenhum motivo aparente. Ou seja, o artista já era conhecido, já era consagrado, cobrava em um ano R$ 200 mil, no outro ano R$ 400 mil, no outro ano R$ 600 mil”, afirmou a promotora de Justiça e coordenadora do Centro de Apoio às Promotorias de Patrimônio Público do MP, Rita Tourinho.
Botão de alarme
O cenário levou o MP e os tribunais de contas do Estado (TCE) e dos Municípios (TCM) a criarem uma espécie de régua para tentar frear a gastança. A orientação, agora, é considerar como parâmetro os cachês pagos em 2025, corrigidos pela inflação. A conta é simples: se praticamente nenhum outro contrato público cresce 20%, 30% ou até 50% em um único ano, por que os shows bancados com dinheiro público estariam escapando dessa lógica?
Até agora, mais de 50 municípios já foram acionados pelo MP. Entre eles estão cidades como Formosa do Rio Preto, Iraquara, Paramirim, Quijingue, Jequié, Irecê e Livramento de Nossa Senhora. O órgão também instaurou 129 procedimentos administrativos para acompanhar os gastos com os festejos juninos deste ano.
Limite de Atenção
A ofensiva ganhou ainda mais repercussão após o valor de R$ 700 mil passar a ser usado pelos órgãos de controle como parâmetro para identificar contratos considerados de maior risco. Embora o MP reforce que não existe um teto oficial para cachês, contratações acima desse valor passaram a exigir justificativas mais robustas das prefeituras.
Segundo o MP, cachês acima de R$ 700 mil representaram cerca de 1% das contratações registradas no Painel Junino de 2025, ferramenta desenvolvida pelo órgão para monitorar os gastos juninos. Por esse motivo, passaram a ser tratados como situações de “alta materialidade”.
O MP, porém, evita chamar a cifra de teto. Oficialmente, o valor funciona como um “limite de atenção”. Acima dele, as prefeituras precisam provar que têm saúde financeira para bancar a festa sem comprometer áreas essenciais. “Nós consideramos contratos acima de R$ 700 mil como contratações de alta materialidade, ou seja, contratações de risco”, explicou Rita Tourinho, em entrevista ao Jornal Metrópole.
Festa sim, exagero não
Apesar do cerco, o MP afirma que o objetivo não é cancelar festas. A estratégia é outra: forçar municípios e empresários a explicarem por que os cachês dispararam tão rapidamente. Segundo Rita Tourinho, empresas que representam artistas também passaram a ser acionadas judicialmente para justificar os reajustes.
“O que é que a gente quer? A gente quer que o valor da contratação se adeque à nota técnica”, afirmou a promotora. “As empresas vão ter oportunidade de explicar por que os cachês subiram tanto”, completou.
Segundo ela, o MP também tenta romper uma lógica que acabou se consolidando nos últimos anos: a de contratos fechados rapidamente, com cifras milionárias, enquanto as justificativas para os aumentos costumam surgir apenas após a repercussão pública ou atuação dos órgãos de controle.
São João cada vez mais caro
Os números ajudam a dimensionar o tamanho da disputa pelos grandes nomes do período junino. Em 2025, cidades baianas chegaram a investir cifras milionárias nos festejos:
Cruz das Almas: R$ 9,5 milhões
Jequié: R$ 9,3 milhões
Serrinha: R$ 8,7 milhões
Irecê: R$ 7,9 milhões
Santo Antônio de Jesus: R$ 7,2 milhões
Ipiaú: R$ 6,9 milhões
Senhor do Bonfim: R$ 5,3 milhões
Quijingue: R$ 5,25 milhões
Conceição do Jacuípe: R$ 5,13 milhões
Livramento de Nossa Senhora: R$ 5 milhões








